lundi 6 décembre 2010

quase um gibraltar

margarida me fez acordar. estava no cartório, sentindo o cheiro do carimbo naquele recinto vazio, plena madrugada cumprindo hora extra. comecei uma livre associação com minhas leituras de faculdade, com paulinho da viola e romances lidos durante toda vida.
vejo agora onde estou. sentado nessa cadeira de couro bege, com o estofado desgastado se entrelaçando ao tecido da minha calça. essas certidões de nascimento, matrimônio, óbito. sou em quem decide a existência das pessoas. eu digo quem está vivo e quem está morto. esse poder do registro acabou por sugar tudo o que eu tinha em mim.
lembro-me da época em que passava as noites em claro lendo romances, tocando o despertar da montanha no meu bandolim. bebia, ria, respirava fumaça que não vinha do trânsito. discutia assuntos espirais com meus amigos, tudo regado à cerveja gelada. ficava à espreita das saias das moças, flutuando com o vento gelado do bar.
gostava de sentir os corpos roçando ao meu no caminho da fila do banheiro. gostava do barulho da tampa sendo violentamente arrancada da garrafa. aquele murmúrio ininterrupto de existências desnorteadas, que conseguiam tirar um prazer monumental daquele estado de transição em que seus corpos etílicos se encontravam.
hoje sou um abscesso. sou um carimbo gigante, que decalca a impropriedade sobre as existências em fluxo. nada no mundo me escapa mais, sou como algoz que serve às letras estáticas e eternas.
margarida fez-me ver a vertigem proveniente dum barco nas ondas. fez-me ver que a vida escapa a essa paralisia do registro, do estado, das leis. ainda há espaço de transição. suspensão espaço-temporal.
ah, o mar... tudo flutua. sem limites nem bordas de folha de papel. lá, as palavras escapam para onde a vida se exalta. de embarcação em embarcação corpos se esbarrando, convivendo e desaparecendo para depois de anos voltarem a se encontrar.
a cada atracação no porto, a terra é diferente. tudo cheira diferente. as cores mudam de espectro. bodies taste different. tudo é vida ao cheiro de maresia.

1 commentaire:

beto,,, a dit…

deus! como gostei disso! deus! deusa!